Há dias publiquei um post sobre a praia do Bar Azul, agora revelo um segredo sobre este papel digital chamado blog…
Há coisa melhor do que ver duas crianças a correr na areia da praia?
E então descubro que tenho sede, mas não tenho sede de água. Tenho sede de rede.
Há dias publiquei um post sobre a praia do Bar Azul, agora revelo um segredo sobre este papel digital chamado blog…
Há coisa melhor do que ver duas crianças a correr na areia da praia?
Este é o gato de botas… não o fiel amigo do ogro Shrek, mas o de Charles Perrault, que acaba por comer o ogro traformado em rato… O pai gosta de contar a história à filha, e esta conta a sua história ao pai. No rosto que se esconde há histórias que o pai não sabe contar.
A liberdade é azul, a igualdade branca, a faternidade vermelha. Onde moro estas cores costumam brincar às escondidas em tons de sépia, a abrir caminhos de luz entre os verdes.
Ontem foi dia de praia. O pai e a menina foram de Metro e saíram em Matosinhos Sul. Acomodaram-se perto do mar, com a praia ainda vazia, e deixaram o vento baloiçar as cores do guarda-sol enquanto faziam castelos de areia. Algumas nuvens corriam no céu azul, criando sombras rápidas sobre as pequenas dunas mornas. A menina estava tão contente que não sabia por onde começar e mesmo com os moldes exatos para fazer um polvo violeta, um pato amarelo, um barco verde e uma estrela do mar vermelha, preferiu voltar à calçada, perto do bar, onde já lá estavam outras crianças a brincar numa casa em plástico. Experimentou todos os brinquedos, comeu bolachas, bebeu água até que chegou a hora de voltar para preparar o almoço. No caminho de volta quis segurar o guarda-sol com os dois braços, como se abraçasse todas as cores do arco-íris.
"The seed that you plant today tomorrow will be a tree"
Carpet of the Sun, Renaissance, 1973
Tradução para português:
A fruta é a semente
"A semente que plantamos hoje será a árvore de amanhã"
Carpet of the Sun, Renaissance, 1973
O que a madrinha lhe havia criado com os individuais de plástico, imaginando um telhado entre as duas, agora a menina redescobria numa outra casa em que até conseguia entrar. O pai rearrumou todo o quarto, e conseguiu um espaço para montá-la. Após colher as maçãs, tratou de fazer a sua especialidade, tirando de algum lugar, provavelmente de um armário, uma panela que lhe permitisse cozê-las em lume brando. O doce era feito à gosto, apurando com o tempo de cozedura. O pai divertia-se com a alegria contagiante da menina. Quando ficou pronto, a menina estendeu a mão pela porta e disse:
- Prova, papá.
Aquele era o melhor doce caseiro do mundo.
O pai e a menina foram à festa de Matosinhos. A menina adorou os carros, sempre dando gritos de alegria a cada passagem pelo pai. Ao final da festa, estava tão cansada e feliz que pediu ao pai para ir às cavalitas, e lá foi até ao Metro a contar o que tinha feito e o que ainda queria fazer. Quando chegaram em casa, como era de se prever, a menina dormiu logo, mas teve um sono agitado... tão agitado, que até rolou e o fez tantas vezes que até parou no chão. Coitada, a menina chorou, o pai acordou preocupado, mas quando a deitou de volta à cama, já o choro havia parado, e a menina dormia novamente, continuando às voltas nos carros do sonho...
No dia seguinte, era tempo da menina voltar para a mãe. O pai, triste, ainda preocupado com a queda da menina, olhou para o céu nublado e, no meio do sol e da chuva, viu um arco-íris, e sorriu. As cores lembravam-lhe a menina nos carros da festa a andar às voltas. A menina trouxera o arco-íris para o final de mais um fim-de-semana especial e o pai dormiu mais descansado.
Há uma nova música no Canal Panda que o pai e a menina adoram. Fala sobre a amizade e o refrão é como se segue:
Quando estamos tristes
Quem nos ouve, quem lá está
Melhor que ter amigos não há
Quando temos festa
Quem alegra, quem lá está
Melhor que ter amigos não há
A letra, melodia e colorido da imagem cativaram-lhes ao ponto de cantarem juntos.
- Canta de novo papá!
Tenho no meu escritório um quadro dividido em quatro partes. Em cada uma delas coloquei a menina e em duas delas coloquei o pai a acompanhá-la. Das duas em que a menina está só, numa aparece em grande, com o olhar meio triste e o rosto inclinado e na outra, de costas, aponta para uma outra foto dela própria, exibida num écrã de cristais líquidos. Cheguei a tirar uma foto desta foto e enviá-la pois este é meu quadro em quartos de esperança.
É tarde recriar o Mundo? Agora que passo a gravar rascunhos das possibilidades de escrita, o Mundo que gira chora, a terra em areia, o ar em monóxido de carbono, a água parada, o fogo que se apaga. Porque possibilidades tornam-se rascunhos, se o coração que chora com o Mundo precisa da água salgada a lavar a cara? Temo pelo futuro, não o meu, que já transmiti a semente, mas o da menina. Ela viverá o Mundo que chora. Será tarde para limpar a lágrima? Não pode ser, e se o é, que renasça, mais forte, mais humano, menos egocéntrico, menos depressivo.
Na caixa perdida da arrecadação, onde guardei a inocência que julgava poder usar um dia, encontrei uma pequena semente. Resolvi dar a semente para a menina, aproveitando para ensiná-la porque a terra, a água, o sol e o ar eram tão importantes para o crescimento daquela possibilidade que cabia na pequena mão que então a segurava. A menina sorriu ao olhar para mim, e nos lábios viam-se a inocência perspicaz que havia outrora guadado na caixa. Naquele momento percebi que a vida estava ali transmitida, não a vida que se opõe à morte, meramente física, mas a vida que não se ensina, que não se ganha, que não se perde, a vida que apenas se vive, como pode, de acordo com quatro elementos que nos sustentam. Queria sorrir assim, mas apenas saiu-me um sorriso de concordância. De qualquer forma, ela parecia satisfeita, como também o ficaria se lhe tivesse dado a própria caixa, ou laço que a atava, ou o pequeno grão de areia que estava no fundo. A vida enquanto uma criança não precisa de motivos, calendários, tempo ou espaço para simplesmente viver. É do que julgava guardado e esquecido que recuperei apenas a semente que transmito. Mas será uma possibilidade tão infinita um apenas? Não. Aquilo que deixa de viver lança a semente prévia e renasce, mesmo que no coração de uma vida enquanto criança, mesmo que na vida de um coração que se quer sempre criança.
Este post também nasceu noutro blog e renasce aqui, como resposta à dor que uma morte enquanto criança pode causar a um coração que se quer sempre criança.
Neste princípio de primavera, o pai levou a pequena menina à praia. Ela brincou na areia, fazendo os grãos de areia escoar entre seus pequenos dedos, sorrindo feliz. Acho que primavera é como ver uma criança a sorrir.
Este post nasceu num comentário meu para um outro blog, e renasce aqui.
Ontem foram de comboio a Esmoriz. Alguns colegas de trabalho, que, fora destas horas também são amigos, combinaram lá um churrasco. Mas primeiro, houve mais uma viagem de Metro...
A cada estação a menina perguntava:
- O que que ela disse?
- Destino Estádio do Dragão - respondia o pai. Ela sabe o que a senhora diz no metro, mas gosta que o pai repita e então sorri.
Em Campanhã tomam o comboio urbano para Esmoriz, saem na estação e procuram pelo local do encontro. O que se passou depois foi só divertimento, um fim de semana especial entre pai e filha.
Já se tinha habituado a estar com o pai só de quinze em quinze dias, mas naquele dia a menina estava diferente. Quando percebeu que estava agora no colo da mãe e que por mais duas semanas não poderia brincar com o pai, a menina olhou para ele com olhos vidrados e fez um beiço. Aquele gesto sem som lembrou-lhe o quanto intensa é a palavra saudade.
A menina não queria acreditar que era impossível ir para a vila onde mora a bisavó para tomar banho na piscina. O pai, sempre em busca de uma boa justificação, explicou que não tinha como levá-la e que, como ainda estavam no Inverno, ainda tinham que passar pela Primavera para chegar ao Verão. Percebeu que não havendo Verão não poderia aproveitar a piscina e usou da sua arte para apressar o Verão, ao olhar para uma réstia de sol que resistia ao dia de chuva:
- Chegou o Verão. Eu quero ir para a vila.
Entre ruas de Matosinhos, a resistência da tradição agropecuária alegra a menina. Há galinhas, patos, ovelhas e cabritas. Mas com a chegada da primavera, as ovelhas e as cabritas vão para a "casa do senhor". É tempo de renovar a terra.